À medida que os anos vão passando , os natais mudam de sabor.
De convidadas, ou protagonistas nesta festa familiar, tornamo-nos anfitriãs.
Somos as mães que tentam tornar o Natal colorido para os filhos, saboroso para os familiares que outrora nos "preparavam" as festas de Natal.
Nada disto me aborrece.
Até me dá prazer mostrar que "cresci" , que embora prepare o bacalhau de forma diferente, tento ter mesa farta, presentes para todos, reunir quem mais amo enquanto o calor da lareira nos aquece o corpo e o coração.
Incontornáveis são as memórias e as ausencias de quem partiu cedo demais.
Não há um Natal, desde que fui mãe , que não imagine como seria ter a presença do meu pai com os meus filhos.
Tinha que ser assim, foi o destino, que não quis que conhecesse os netos, ou mesmo que me visse chegar à idade adulta.
22 anos sem pai.
22 Natais sem esse homem que me fez casinhas de madeira para as bonecas, me levou aos armazens Grandela, à Porfirios, e me mostrava atraves dos seus olhos toda a magia que eu entendia da mesma forma que ele.
Alimentava-se das minhas alegrias.
Parece que foi noutra vida.
E no entanto faz tanta falta ainda e continua a chocar-me tudo o que vivemos, a sua doença tão prolongada e devastadora, o seu estado incapacitante, a sua vontade de viver, apesar de cada faculdade perdida, do aspeto que afastava toda a gente pelo preconceito de quem desconhece.
Dias de luta, tão inglórios.
Tinha um feitio apalhaçado, ao pé dele ninguem estava mal disposto. Ao mesmo tempo tinha uma frontalidade mordaz.
Irónico.Sarcástico. Amava o amor.
Odiava injustiças.
Bastante humilde. O senhor Luis.
Tinha um conceito de familia imenso. Nunca se apercebeu que ele e o pai eram afinal muito parecidos.
Louco pelas filhas, sonhava em ter meninos.
Teve tres netos que não conheceu.
Tem.
Se há tristeza que guardo é essa.
Queria mesmo poder ter um só dia em que o Universo tivesse uma brecha e mo devolvesse.Para que ele pudesse estar comigo, com a minha irmã, com os nossos filhos e avós.
Sonho alto...
Lembro -me de ter 6 anos e de me fingir dormir só para que me levasse ao colo para a minha cama.
Colo melhor que o do pai...nunca existiu.
O melhor sitio do Mundo.O mais seguro e aconchegante.
Mas crescemos.E os pais tornam-se chatos.
O meu não.O meu adoeceu gravemente.
A doença roubou tudo. Atenções, sorrisos.
Anos demais.
E no fim não houve vitória.
Houve o barulho horrendo de terra a bater numa urna que eu própria tive que escolher com 15 anos.
Esta história não tem culpados.
Tem um argumento de mau gosto.Quem a escreveu era sádico.
Nós, familia, tentamos desde essa tragédia erguer-nos da forma que sabemos.
Mas esse roubo , de um jovem de 36 anos, tirou o encanto dos natais.
Decidi, anos depois, tentar fazer os outros mais felizes, alimentar-me da felicidade que dou.
Seja em generos, seja em actos.
Todos estranham.Neste Mundo estupido e injusto ninguem dá nada a ninguem.
Aproveitam-se.
Finjo-me de parva .Cada um carrega a sua consciencia e karma.
Eu vivo com a minha.Tranquilamente.
Gostava de um Natal pacifico.Com os meus avós saudaveis.Com os meus filhos felizes.
Todos juntos.
E que a saudade começasse a doer menos.
