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Marta Veloso

Lembro-me da minha mãe  com 50 anos  repetir-se muito. De lhe dizer que já tinha dito aquilo. Mas não valorizei. 
Anos mais tarde é diagnosticada com demência. Alzheimer. 
Hoje tem 64 anos , um marido com o coração desfeito porque a vai ter que internar num lar , porque ela precisa de cuidados  permanentes.
E eu, confesso que  sou grata pela felicidade que deu à minha mãe que durante mais de 30 anos o amou cegamente. Pelos cuidados que tem com ela nestes anos tão tristes . 
Quero muito que ele não morra no  Alzheimer que não sendo dele também o consome. Que tenha ainda muitos anos de vida ,vividos com paz, com o carinho que eu , a minha irmã e o nosso irmão sentimos por ele. 
Sei que se a minha mãe fizesse ideia do que se passa desejaria que ele fosse o mais feliz possível. 
É uma dor muito estranha. 
Já a tinha sentido com o meu avô paterno que aos 80 anos foi diagnosticado com a mesma doença.
Alzheimer

Mas jamais, em tempo algum ,pensei que fosse reviver o mesmo com a Margarida. Afinal, ela é... minha mãe. 
E dói-me saber que os meus irmãos sofrem. Dói -me saber que o  marido sofre. 
Dói -me, porque nunca nos sentaremos para resolver as nossas pendências. 
E sinto uma pena devastadora,  uma mulher que era um autêntico furacão, tinha uma energia incrível e agora não reconhece ninguém, não sabe em que mês estamos ou  se tem filhos ou não. 
O Alzheimer é das maiores Maldições de todos os tempos. Devastador. Implacável. Invencível. Rouba memórias, vidas. Quem somos nós sem as nossas memórias? 
Nesta fotografia estão as minhas duas mães. A avó Mimi, que tem 94 anos, lúcida, autónoma, saudável e a mãe Margarida, com 64 anos , sem memórias. 
Quando o meu avô foi diagnosticado, perguntaram-lhe quem eu era. Ele disse 
 " Quem ela é eu não sei, só sei que é minha". 
A minha mãe já não sabe quem sou. Talvez no escuro da sua memória lá me tenha perdida, a mim e aos meus irmãos. 
Eu sinto-me roubada. 
Como se me tivessem tirado  a mãe na sua essência e me deixassem a " casca", o corpo. 
Não guardo mágoas nem ressentimentos. Sinto saudades . Porque passamos alguns bons momentos. Porque nos riamos muito às sextas feiras quando vinha a minha casa " caçar chocolates" que comia desalmadamente , especialmente quando estava com o período. Porque adorava ir comigo às compras, a Lisboa, adorava não ter que ser ela a conduzir na " confusão".  Adorava o meu bacalhau com natas . Ela não era bem uma mãe. Era uma irmã mais velha, com quem pensei vir a viver muitas coisas boas quando tivesse mais tempo e se reformasse. Sinto uma tristeza , um vazio, um luto sem cadáver, um velório de um defunto que está vivo.
Só queria que fosse feliz. Não isto. Nunca isto. 


A primeira vez que me questionei sobre o meu peso devia ter uns 15 anos. 
Já com 1.75 vestia um 36, enquanto as amigas mais próximas envergavam tímidos 34. 
Era a altura em que trocavamos de roupa, de casacos a tops, camisolas e vestidos. Mas as calças, essas , nunca me serviam.
Aos 15 anos, e depois de perder o meu pai , após ter vivido no limiar da sua perda durante 7 ou 8 anos, lidar com pessoas que se afastavam porque, imagine-se, uma doença terminal , pelo menos naquela altura em vez de apoio ou empatia gerava asco, já que o doente ia perdendo capacidades, cabelo, a pele estava em absoluto declínio ( o meu pai faleceu com Lúpus numa versão bastante severa), o que eu mais queria era " encaixar-me", sentir que fazia parte de algo, ser igual a toda a gente, deixar de ser apontada e excluída.
Então, apesar de caber nos números de roupa convencionais, sentia -me gorda.
Não  era. Tinha uns 62kgs. E sentia uma vergonha desgraçada porque à minha volta ninguém pesava mais de 50, ignorando que tinha em média mais 20 cm que as outras.
Com os anos, e aproximando-me da idade adulta fui ganhando noção e alguma paz, no que ao meu peso  dizia respeito. 

Vieram depois dois filhos, e cada gravidez trouxe-me uns KGS extra valentes que a custo fui conseguindo eliminar .
As depressões assolaram-me a partir dos vinte e poucos e com elas a instabilidade  proporcionou  aumentos e baixas de peso constantes. Medicação que me deixava prostrada, inerte, sedentária e, por sua vez fazia com que as minhas oscilações de peso fossem cada vez mais desestabilizadoras.
Chego aos 45 anos,  após acontecimentos devastadores com um peso que jamais pensei vir a ter. 
Habituada já, a ver nas minhas fichas médicas  " obesa". E aquele " obesa", incomodava-me mais que qualquer " gorda" dito numa rede social ou sussurrado enquanto passava. 
Já com diagnóstico de hipotireoidismo auto-imune e perturbação afetivo-bipolar, a tomar mais medicação nada inocente no que concerne ao peso, vejo-me numa consulta de cirurgia metabólica no Hospital Pulido Valente, depois de vários exames e análises que atestavam que a bariátrica seria provavelmente a minha oportunidade de vir a ter uma vida normal, com qualidade de vida, já que tinha o fígado alterado, a tensão altíssima e um número já elevado de órgãos afetados pelo excesso de gordura no organismo
A minha primeira consulta foi em Agosto de 2022, fui operada em 25 de Setembro de 2023.
Não sou de " dourar a pílula", e embora saiba que exista quem não tenha tido uma dor, confesso que quando saí da cirurgia sentia tantas que me lembro de espumar, literalmente e durante talvez segundos perder a noção de onde estava. Assim que consegui articular palavras para me queixar das dores que sentia , fui medicada e ainda que me doesse até a respirar, as dores foram passando, aos poucos
Não são todos que sentem dor, e, existem hospitais que dão medicação mais forte o que previne o doente de sentir essa dor. Creio que ali, optaram por paracetamol até para vigiar uma possível dor exacerbada que poderia ser sinal que alguma coisa não tinha corrido bem. Pareceu-me que se regiam em que mascarar a dor poderia ser pior que a sentir durante algumas horas e agora, mais distante dos factos , tenho a certeza que fizeram o mais acertado.
Arrependi -me umas 500 vezes nas primeiras horas. 
Pouco depois da cirurgia já andava em suaves caminhadas, agarrada ao suporte do soro, sempre acompanhada por uma enfermeira ou auxiliar , para me livrar do desconforto que os gases injetados durante a cirurgia fossem abandonando o meu corpo e com eles as dores incómodas , desta vez não nas incisões, mas um inchaço generalizado fruto da cirurgia.
Hora após hora, havia uma diminuição lenta do mau estar e da dor. A sede incomodou-me. Mas, após uma cirurgia em que é cortado cerca de 80 a 85% do estômago e este se encontra em cicatrização, nada de água nem qualquer tipo de alimento.
Aquela noite durou um ano.
As enfermeiras foram incríveis, sempre a ver se estávamos bem, se tínhamos dores, a medicar, a ajudar a levantar . Senti-me segura, apoiada e , acreditem que naquela altura é tudo o que precisamos. 
No dia a seguir , esperava-nos um copo de chá gelado, sem sabor. Um copo daqueles de plástico, pequenino. Chá esse que bebi numas duas horas, tamanho o medo da reação do meu tubo digestivo.
Foi-nos dada alta com indicações de ingerir nas próximas 3 semanas apenas líquidos, , sopa bastante líquida, leite, iogurte líquido magro sem açúcar, fruta cozida batida( Deus me livre e guarde, só o cheiro agonia), multivitaminico e proteína para juntar aos alimentos. 
A cirurgia   é ao estômago. 
E o problema é que a raiz do mal está na nossa cabeça. São muitos anos de maus hábitos, muitos anos em que o organismo está habituado a pão, prato cheio, e a esta distância daquele tipo de alimentação já tenho dificuldade em lembrar tudo o que ingeria e que não era assim tão necessário para o meu corpo. 
O verdadeiro processo vem depois da cirurgia. E isso não significa que nunca mais comeremos bacalhau com natas, sushi ou fast food. Significa que serão excepção e não regra. 
Passado um mês , cada vez que vou ingerir algo penso nos nutrientes que tem. Não numa análise exaustiva mas, opto pelo que possa ser mais benéfico para o meu corpo
Açúcares refinados, glúten, lactose, inflamavam-me de tal forma que cerca de uma semana depois da cirurgia, o meu rosto estava diferente devido a essa abstinência. A pele melhorou muito, até na firmeza.
Sei que tenho ainda um longo caminho para percorrer, caminho esse que provavelmente será para toda a vida, mas tudo farei por mais anos de saúde que estava a perder.
É interessante ver as roupas em pouco tempo ficarem enormes, e outras que sequer serviam entrarem no nosso corpo e pouco depois termos de por de parte porque já está grande demais, mas , e ao contrário do que pensei inicialmente, tudo se vai focando nas melhoras da saúde. Na diminuição do cansaço, no aumento da energia. 
Vou dando notícias, afinal, a obesidade e a sua luta estão na ordem do dia e eu sinto-me uma privilegiada pela segunda oportunidade que a vida me está a dar .

Sleeve Gástrico


Marina Machete

Marina Machete tem o título de Miss Portugal 2023. 
Até agora , nas caixas de comentários nas redes sociais existe uma porcentagem enorme de mulheres portuguesas que afiançam esse facto como uma tentativa de roubar o espaço das mulheres " a sério".
 Mas o que são mulheres a sério? 
Eu nasci com vagina, sempre me identifiquei com o sexo que consta nos meus documentos. 
Mas podemos pensar que existe quem tenha nascido com o sexo oposto àquele com o qual o seu cérebro grita e se identifica. Não aprecio a quantidade de letras que se junta a LGBT porque , e perdoem-me, sou talvez antiga e já perdi a capacidade de atualizar o meu " software " para conseguir estar a par de tudo e " todes". 
Estranho muito mais os pronomes que o facto de alguém que decidiu lutar pela sua identidade de género  tenha conseguido alcançar aquilo a que se propôs. 
Sei que existe uma " fracção  estranha" extremista, eu sei lá, que parece querer aniquilar quem nasceu  biologicamente falando, mulher. E não. Não acho bonito. Acho estúpido que se refiram a nós como " portadoras de útero" . Aí já chamo mais inveja que outra coisa. Não tem que haver guerra entre as diferenças. Podemos simplesmente aceitar os outros ? Ser tolerantes como esperam que sejamos? Amar sem ver se nasceu com pila ou não? 
Sou hetero, mas não gosto ou deixo de gostar seja de quem foi mediante o sexo que nasceu. Não amo genitais, amo pessoas. 
Num Mundo com cada vez mais fome, crise habitacional, doenças graves , aquecimento global, racismo, desastres naturais, guerras estúpidas, crimes como femicidio, violência doméstica que todos os anos mata tantas mulheres, pedofilia,  crise na Saúde sem precedentes, a sério que o que vos tira o sono é que a Marina tenha ganho o concurso de Miss Portugal quando é, na minha opinião a mais bonita do concurso? 
Desejo-lhe toda a felicidade do Mundo.
Que a felicidade dos outros nunca nos ofenda. Porque pelo menos neste caso, não tem mesmo que ofender.



Força Marina. 
Após mais de uma década com uma tatuagem que realmente me incomodava , decidi ir cobri-la com outra tatuagem e o resultado não podia ter sido mais satisfatório. Tem que ficar aqui registado. Que fique também registado que quero mais! 

Tatuagem antiga

Tatuagem flores


Por mais séries e documentários americanos que veja, não há absolutamente nada que bata a intensidade das series turcas. Os atores são muito convincentes, há uma mistura de culturas da Ocidental para a árabe , tendo em conta que mais  de 90% dos turcos sao muçulmanos. Aprendemos muito sobre costumes dos mais obsoletos, aos intemporais, das famílias mais tradicionais às mais nodernas. 
Existe apenas algo que é comum . O pudor ,  mais depressa apanham um  padre numa série turca que um beijo na boca entre atores . Às vezes faz falta, para compor a coisa mas , não é o mais importante. 
Podes assistir no Youtube, bastando que coloques o nome da série em turco e escrevas " legendado" , a menos que sejas fluente em turco. 
Vou então dar-vos o nome de algumas séries que não devem perder. Aviso que a Netflix tem tem o " Kara Para Ask" , um romance policial e o "Interception ".

Kirmizi Oda - O Quarto Vermelho- uma série passada no quarto vermelho do gabinete da psiquiatra, que pacientemente ouve os mais diferentes casos e perturbações e procura com o paciente entender o que provoca cada um e como curar. 


Camdeki Kiz - A rapariga na Janela - Nalan, uma jovem bonita, rica, oprimida e maltratada pela mãe casa-se com um herdeiro burro, rico e mulherengo. E é sempre a piorar...


Benim Adim Fahrah - O segredo de Fahrah. Fahrah , de uma família pobre que vive na cave de um prédio, onde os pais são porteiros consegue entrar na universidade e, sentindo-se constantemente humilhada, decide passar-se por rica. 


O kiz.   Rapariga - Zeinepp é filha de um homem de 50 anos com um atraso cognitivo provocado na altura do seu nascimento, então, comporta-se como se tivesse quatro anos, mas é um homem incrivelmente bom, puro e ingênuo. Zeinepp entra no Mundo dos influencers onde é muito bem aceite mas , mostra apenas aquilo que é agradável ao grande público. Foi abandonada pela mãe quando nasceu, mãe essa que vai cruzar o seu caminho. 


Se quiserem mais sugestões, digam!
Novelas turcas

. 
Li esta pergunta perturbadora a primeira vez que me desloquei ao Centro Neurológico Senior aqui em Torres Vedras, uma unidade de saúde focada em doentes neurológicos .
Lá voltei alguns anos depois, desta vez com a minha mãe para receber um diagnóstico de demência e Alzheimer precoce, já que desde os 40 anos que foi mudando o comportamento, tendo episódios em que se repetia, esquecia que já tinha dito algo e a corrigimos como se fosse um lapso inofensivo. 
Embora me tenha sentido sempre pouco amada pela minha mãe , a verdade é que chegamos a uma altura da vida que temos que aceitar que os nossos pais foram o melhor que sabiam e podiam para nós, independentemente que tenham sido diferentes para outros. Há que fazer um reset , perdoar, aceitar, tolerar  que não vale a pena manter mágoas e dores antigas porque nada pode mudar o passado. 
Foi talvez das coisas mais difíceis, quando soube que estava a iniciar um processo de demência, perceber que o pedido de desculpas nunca chegaria, que nunca viria a recuperar o Amor daquela mãe, que foi sempre a minha maior ânsia e desejo. 
E foi difícil porque no dia em que nos deslocamos ao Centro Neurológico aconteceu pela primeira vez ela olhar para mim ,nos meus olhos e dizer-me a sorrir que não sabia quem eu era. 
E custa saber que tudo se desenrola a uma velocidade luz, que as capacidades se perdem a cada dia. Que o que foi não voltará a ser. 
E acima de tudo saber que esta dor de a ver deixar de saber quem é só terminará quando fechar os olhos para sempre. 
Mais uma vez. O que fazer? Aceitar. Está a ser feito tudo para que não lhe falte nada. E eu tenho a certeza que isto acontece em famílias que infelizmente não conseguem proporcionar as melhores condições, o que não é o caso. 
Mas o "sumo", o essencial, não muda. 
É a degradação do ser humano. 
Uma transmutação de ser autônomo e cognitivamente capaz para um ser dependente que não sabe que o é, confuso com tudo o que vê, violento, desorientado.
Porque sem memória somos livros com páginas arrancadas. Não temos história, perdemos a única coisa que reunimos durante a vida. As nossas recordações. Porque , ao fim ao cabo a vida é uma miscelânea de recordações. Sem isso ... nem a dignidade do básico sabemos. E quando acontece numa idade em que normalmente nem nos podemos reformar , sabemos que o universo cometeu um erro. E ninguém quer ser um erro do universo. 

Mãe




 
E um dia percebes que desde o dia do teu nascimento, mais que a ganhar, tens a perder. E não é ver o copo meio vazio, não é que a vida não nos permita criar memórias que nos sejam tatuadas na alma. É que o Amor, esse sentimento que parece vulgar é tão único e raro que quanto mais o tempo passa mais são as chances de começar a perder pessoas para o infinito e não há nada mais assustador que a finitude dos que amamos, já que amar é tão raro e incomum nos dias de hoje. 
Vejo pessoas que se toleram, pessoas que se aturam, e é tão especial ver um relacionamento, seja ele da espécie que for que não seja desequilibrado.
É como se sempre, em todos os casos de afecto, carinho, amor, existisse quem ama mais. Quem venera e o venerado. O interesseiro e aquele que dá sem pedir nada em troca.
Talvez por saber que o Mundo é assim, tão oco e superficial, tenho me afastado aos poucos das pessoas. Para haver um núcleo duro, familiar, que eu priorize, já que venho de uma família em que primeiro se valorizavam os estranhos negligenciando os de casa .
 A vida tira, tira, tira. E o mais incrível, é que muitas vezes tira para nos mostrar  caminhos. 
Já pensaram que se não tivessem passado por todos os caminhos difíceis que passaram dificilmente teriam tido experiências e ligações afetuosas que tanto vos enriqueceram? Ok. Teriam outras, mas, aquelas que tanto valorizam hoje, provavelmente não. 
A vida é sobre o quanto se perde e o tanto que temos que agradecer de ter tido quem perder. 
Porque o sofrimento é o castigo que temos a pagar por Amar. 
Então, e por mais que  custe, o sofrimento da perda, o luto, este vazio que fica, é porque um dia já houve quem o preenchesse. 
 Vai em paz querida São. Esperam-te os teus pais, o meu, e um dia destes, reencontramo-nos. 





Perder




Era uma menina, igual a tantas outras, mas, por dentro sempre se sentiu diferente.  Habituada a olhar para o espelho e a não se identificar com o que via, como se aquele não fosse o rosto que recordasse ter, como se cada vez que visse o seu reflexo desse um salto achando que era outra pessoa que a espiava. Enquanto pequena, a família dizia que era linda, e, para dizer a verdade, era uma criança normal, de olhos tristes e meigos.  A verdadeira tristeza veio depois, quando já tomava o colo do pai por garantido e este deixou de existir. Quando começava a ver na mãe uma amiga e esta decidiu recomeçar a sua vida sem mim. Ficando a viver numa intermitência entre os avós maternos e paternos, que verdade seja dita, haviam sido escolhidos pelo Universo " a dedo". 
Os "avós de Verão", os maternos, aturavam-me durante três meses seguidos, num lugar em que se juntavam pobres e mais pobres ainda, se alugavam terrenos para tendas de campismo, a avó cedia a arca para todos os " rendeiros"( como lhes chamava) e aqui e ali, avó e neta se divertiam com a presença constante daqueles que passavam o ano a sonhar com aquelas férias num pedacinho de terra que lhes arrendava a " ti Mari da Luz", a minha querida avó, que tanto me avisou que um dia , quando ela cá já não estivesse, eu a ia lembrar muitas vezes. Avó profeta , aquela. 
Divertiamo-nos com uns que falavam mal dos outros , entrava um, saiam outros e a lengalenga era igual, só mudavam os nomes. 
A avó fazia limpezas em casa das " meninas de Lisboa", umas senhoras na sua maioria solteironas, quase todas elas licenciadas, filhas de doutores , meninas essas que tinham idade para serem minhas avós e que recordo com tipo muito masculino, a fumar noite e dia. A minha mãe era afilhada de uma dessas doutoras , e levou o nome Margarida em homenagem à madrinha ( sorte a dela, há 64 anos os nomes comuns não eram tão generosos como o que lhe calhou).
Todos os anos , lá ia a mãe ao chamado da madrinha, buscar roupas que as doutoras já não queriam, afinal tinham uma vida desafogada, ou pelo menos mais privilegiada que a nossa, e mais valia partilhar que deitar fora. A caridadezinha fica sempre bem. Nunca souberam elas que éramos bem mais magras e jovens, já agora, e que nada nos caía bem. 
Para além disso, os meus pais sempre trabalharam muito, o que não significava que tinham muito dinheiro, eram funcionários públicos portanto naquela altura, significava apenas que trabalhavam muito. 
E foi aos meus 12/13 anos que, vendo a minha prima com mais um ano que eu trabalhar no verão, comecei também a trabalhar. 
E que descoberta fantástica aquela de fazer algo que me divertia e me trazia o peso de responsabilidade e me possibilitava guardar dinheiro para as roupas de inverno e material escolar. Queria roupas de marca? Comprava com o dinheiro do meu trabalho. Mas tanto serviam as de marca quanto as da feira que tinha sempre coisas girissimas a cem ou duzentos escudos. Feira de Peniche anos 90. Não havia melhor .
Recordo o meu pai já muito doente ir visitar-me ao final do dia, com o sol já baixo, já que o Lúpus lhe dava uma condição de quase vampiro e o seu olhar entre o orgulhoso e o triste. 
A vida era melhor antes? Era. Talvez por isso o meu pai tenha feito um esforço hercúleo para sobreviver a cada crise e poder viver mais e mais um bocadinho. O meu pai chorava compulsivamente enquanto dizia que não queria morrer. Mesmo que a pele lhe rasgasse. Mesmo que o cérebro , a depressão lhe causasse  psicoses que o tornavam violento e agressivo. O meu pai, soube aos 29 anos que teria uma morte lenta e dolorosa. Que aos poucos deixaria de andar, que o cabelo lhe cairia, que os órgãos entrariam em falência, que a pele iria rasgar, escamar, necrosar. Aos 30 anos caminhava de bengala. Depois deixou de andar. 
O meu pai nunca auspiciou grande futuro para mim. Ou talvez fosse a sua frustração a falar mais alto. Anos mais tarde o meu avô, pai do meu pai, sanou todas as feridas, sendo o pai  dos pais, sendo o grande presente do universo para mim. Mostrando vezes sem conta e a cada conquista o orgulho que tinha em mim, na minha inteligência, na forma como as minhas palavras tocavam os demais e o faziam chorar de orgulho e amor, dizendo que tinha a certeza que um dia eu seria alguém. 
Para o meu avô, um homem essencialmente honesto e cumpridor, a minha vida era eu quem escolhia. A única coisa que importava era a minha felicidade. Casada ou divorciada, rica ou pobre, a trabalhar num escritório ou a varrer ruas. 
Para ele, enquanto os meus filhos fossem pequenos era importante que ficassem comigo. Não era ordem , era opinião. Acabei por cuidar dos meus filhos e dele a quem a Alzheimer pregou uma partida, bem cedo. Nem que ele tivesse 100 anos, seria sempre cedo.
Voltando atrás, aos 15 anos, precisamente dois dias após completar 15 anos soube da morte do meu pai, via telefone. 
Eram oito da noite e tinha acabado de falecer. Eu estava sozinha em casa e embora achasse que já estava mais que habituada à ideia que ele não viveria muito mais, nunca ninguém está preparado para ouvir " acabou tudo. O teu pai morreu". Menos ainda aos 15 anos. No dia seguinte, eu e a mãe dirigimo-nos à agência funerária ( nunca tinha ido a uma) e foi-me pedido no interior de uma sala em que os caixões estavam dispostos em beliches que escolhesse um " caixão bonito" para o meu pai. O esforço do agente funerário pouco mais velho que eu e que anos depois se tornaria meu compadre, casando com uma das minhas melhores amigas parecia totalmente descabido. " Caixão bonito? Escolha você ". Fomos com ele a Lisboa buscar " o corpo". Durante a viagem era ensurdecedor o barulho do caixão que balançava na estrada antiga Torres Vedras - Lisboa. Confesso que não consegui retornar com o caixão com o meu pai lá dentro. Não sei quantificar a dor que tinha após ver na morgue o corpo do meu pai disposto dentro do caixão, e ter apertado cada pé, cada não, na esperança que gritasse, como fazia cada vez que algo lhe tocava em tais locais em vida. Mas o rosto dele não mudava. A voz dele não se pronunciou. Era o meu pai morto num caixão com os meus tios avós, os meus avós maternos e a minha mãe à volta a chorarem compulsivamente. E era eu que só tinha 15 anos acabados de fazer. E aquele era o meu pai. O colo , a brincadeira, as histórias .Os meus filhos não teriam avô paterno, eu não teria quem me levasse ao altar. Acabara o dia do pai. 
Luís Augusto Lemos Ferreira. Nascido a 1 de Fevereiro de 1956, falecido a  1 de Junho de 1992.
Meu pai. 
Parece que foi noutra vida. Tenho mais anos sem pai que com pai. 30 anos sem pai. 
Não sou a única ,bem sei. O Mundo esta cheio de histórias de vida onde reina a doença e morte  .
Há muita coisa sobre a minha vida que eu preciso escrever. Ainda não tive coragem. Por respeito à minha mãe que  aos 64 e apesar de não ter sido muito presente se encontra demente, com aylzheimer. 
E é aí, que percebo que apesar de me dar pouco, de ter optado por recomeçar uma vida longe de mim, fez por ela, acho otimo. Se eu faria o mesmo? Não. Mas não, talvez porque não faria a um filho o que me fez morrer de tristeza.
E então, é aqui que entendo que todas as falhas, que todas as ausências, que todas as injustiças que sofri fizeram de mim quem sou hoje. 
Hoje, em conversa com o pai do Santiago, perguntava -me se seríamos nós que estávamos mal no Mundo. Não fazemos mal a ninguém. Não negamos ajuda a ninguém e ultimamente estamos a atravessar uma fase que honestamente? Não mereciamos. Lutar com doenças é uma luta injusta. Não sabemos o que nos espera , mas a amizade que nos une amortecerá toda e qualquer dor. Estamos juntos na educação dos meninos e no bem estar um do outro. Mesmo que separados. 
Se eu pudesse escolher, entre ter nascido e não, terei de ser muito franca. Sinto que toda a minha vida cuidei de alguém. O meu cansaço é tal que se não misturar a minha paixão pela cosmética e pela comunicação, o amor pelos meus filhos, não estou cá a fazer muito POR MIM. 
É que chega a um ponto que não são médicos, psicólogos e psiquiatras que por melhores que sejam te conseguem fazer sentir melhor. 
Tomas Rivotril para fugir à dor, à ansiedade, ao pânico. Mas não estarás a fugir ao frente a frente com as tuas emoções e fracasso?
Os meus filhos. Foi isso que vim fazer a este mundo. Cuidar da minha avó de 93 anos . Do meu Luís Augusto ( marido). Aprender a compaixão com a minha mãe. 
Sabem que é inacreditável. Sempre pensei que nada que acontecesse à minha mãe me pudesse fazer sofrer.
Como estava enganada. 
E é simples. 
A minha mãe não era a mãe de folhetim que faz tudo pela filha mais velha, que sofre, sacrifica , luta por ela. Não. Era a mãe do " desenrasca-te". Lembro-me aos 13 anos ter uma crise de asma que tive que andar agarrada as paredes até ao hospital ao que olhou para mim em casa e disse " estás mal? Vai ao hospital, não tenho nada com isso". Cruel, não? O meu filho de 19 vai-me debaixo do braço para o médico. Mas por mais que tenha custado, sofrido, ensinou-me que eu não seria assim. 
Já não nutro nada de negativo por ela. Foi a mãe que pode ser. Foi a mãe que tive. Apesar disso, sinto tantas saudades da mãe que me aparecia em casa com chocolates para os meus filhos. De dançar com eles e fazer parvoices para os netos rirem.  Da mãe que eu maquilhava para ir para as festas. Que eu pintava o cabelo. Que acompanhava ao Baleal para que tratasse o pai acamado. 
Agora tenho uma mãe que não me conhece, que me é ríspida, que já não existe, que não passa de um envolucro de uma bala extinguida há muito. 
Tenho sim, um padrasto incrível, que foi provavelmente o melhor que aconteceu na vida dela, por quem sempre foi completamente apaixonada, a quem eu admiro e sou grata .
A vida é uma merda amigos. Não vale a pena romantizar. Gostava muito de não achar isto. De passar para os meus filhos uma ideia diferente, e acreditem que os educo fazendo crer que podem ser quem quiserem. E acredito nisso. São muito mais inteligentes que eu era. Têm muito mais amor. 
E se eu venci em alguma coisa na vida foi a dar todo o amor materno possível e imaginável. 
Não os estraguei. Tornei-os seguros das suas capacidades, defendo-os de tudo e todos que os queiram magoar e vai ser assim até ao último dia da minha vida. 
Vida essa dedicada aos homens da minha vida. Ao meu Gastão, aos meus Luises, Santiago e Henrique. 
Se não te identificas com nada disto, não faz mal. Temos todos vidas diferentes. 

Desabafo


SÃO 5 DA MANHÃ E AINDA NÃO DORMI
Tropecei, sem querer, numa notícia de 25 de Novembro sobre a  última polémica da marca espanhola BALENCIAGA. 
Dizer que fiquei chocada é pouco. . 
Nos últimos anos , a BALENCIAGA tem sido notícia pelas suas malas caríssimas idênticas a sacos de lixo pretos. Pelos seus ténis destruídos que fizeram sucesso entre as celebridades. E por mim tudo bem. Chamem arte aquilo que bem lhes apetecer. Ou não. 
E  quanto a isto existe controvérsia, porque há sempre quem entenda que a arte não pode ter limites . Na minha opinião, desta vez a BALENCIAGA foi longe demais.
 Usou crianças para a promoção de suas novas malas em peluche que vêem com adereços sado-masoquistas. Na mesma campanha estava uma trela, em cima da cama, e decerto não era para o cão, já que não existia nenhum.
Vê -se também,  a adornar uma mala da marca, por baixo, documentos de  acusação num processo de abuso de menores, e um livro de um senhor que dizem ser artista, cujas obras tendencialmente contém crianças, sem roupa. 
Perante a indignação e as opiniões à volta do Mundo, em especial por parte de celebridades, a marca retirou tudo do site e veio pedir desculpas. 
Desculpas não aceites. Falamos de adultos. É preciso que exista quem mostre indignação para que uma marca com um posicionamento forte no mercado (e uma marca não é uma pessoa, pode esta campanha ter passado por dezenas de pessoas antes de vir a público, e ninguém, absolutamente NINGUÉM viu nada errado?) haja assim. Romantizar a pedófili@? Usar, objetificar crianças vulneráveis para serem a cara de uma campanha que usa práticas sado-masoquistas para vender os seus produtos? Por mim podiam usar até vibradores na campanha mas nunca, em hipótese alguma , crianças. 
E os pais daquelas crianças? Sabiam decerto o teor das fotos . É o derradeiro "vale tudo". 
Tento entender o ponto a  que chegamos.
A insensibilidade.  Mais que um pedido de desculpas a marca deveria ser obrigada a pagar uma quantia substancial para uma associação que proteja crianças vulneráveis. A dar parte dos seus lucros mensais a quem precisa. 
É impensável que uma ideia destas tenha sequer passado do papel, de um esboço num computador, de uma reunião, para obter a aprovação de todos aqueles que tinha que ter para que saísse a público. 
Se quando saíram as malas-lixo e os tênis rotos envelhecidos achei que a marca tinha perdido a noção do ridículo , começo a achar que vai para lá do ridículo. Não temos que ser moralistas mas as crianças , a violência, o abuso, não podem nem devem ser usados como teasers ou fetiches aceitáveis. 

BALENCIAGA


Adorei a série Dark , na Netflix. 
Completamente original, fora da caixa, cerebral, conheço quem a tenha assistido com papel e caneta ao lado, de tantos os pormenores que desatam os nós da trama. 
Agora, chegou 1899, uma série que se podia chamar "Torre de Babel Flutuante", sendo que se passa num navio que leva emigrantes europeus dos mais diversos países para Nova Iorque.
 A base do enredo tem  alguma verdade, uma vez que houve de facto um boom na emigração para os Estados Unidos nessa época e também é facto que nem todos os navios chegaram ao seu destino, tendo sido um mistério desde sempre. 
Os criadores de Dark, decidiram então " explicar" por meio de universos paralelos , muito mistério, suspense, mortos a rodo, o que poderá ter acontecido . 
Obviamente que numa versão bastante alternativa e de nos por os neurónios à porta do médico de família para pedir baixa, sendo que quando achamos que percebemos algo essa descoberta não é mais que um novo mistério. 
Interessante? Sim. Tão bom quanto Dark? Nem por sombras. No entanto, conta com actores conhecidos , sendo que um deles é português e parabéns, não é sempre que colocam um português a fazer de português.
 A ele,  ao jovem José Pimentão, faço -lhe uma vénia, porque sabe ser irónico e muito " tuga" com as bocas que vai mandando ( e que mais ninguém percebe já que por ali se fala polaco, alemão, espanhol, inglês, mandarim, etc) e muito convincente nas cenas dramáticas. 
Valeu por isso. Agora, aguardam-se mais temporadas. Logo agora que estava a começar a gostar...

1899




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